Mulheres à frente da educação: Anna Beruski fala sobre intencionalidade pedagógica, autoridade feminina e formação de pensamento
Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o Blog do URÂNIA dá continuidade à série Mulheres à Frente da Educação, dedicada a ouvir profissionais cuja atuação ultrapassa o espaço imediato da sala de aula e impacta estruturas educacionais mais amplas. Mais do que destacar trajetórias individuais, a proposta da série é compreender como decisões, posturas e escolhas pedagógicas influenciam o cotidiano escolar, a formação de pensamento e a construção de comunidades educativas mais conscientes.
Nesta edição, conversamos com Anna Beruski, especialista em educação no Sesi-DN (Depto Nacional), Professora de História no Dom Bosco e Assunção e Socioemocional no Dom Bosco. Com mais de 15 anos de docência, sua trajetória é marcada por rigor intelectual, participação em processos estruturais, como validação de materiais e construção de matrizes curriculares, e uma compreensão clara de que ensinar é também assumir responsabilidade histórica sobre a formação humana.
Identidade e propósito: intencionalidade como eixo da prática pedagógica
Toda atuação estrutural nasce de uma convicção sobre o que se faz. No caso de Anna, a base não está na repetição de conteúdos, mas na intencionalidade. Antes de ocupar espaços ampliados na escola, sua postura já revelava uma compreensão profunda do papel formativo da docência.
Sua prática parte da ideia de que ensinar não é apenas cumprir currículo, mas organizar pensamento. Essa visão sustenta o que viria depois: uma atuação que transita do micro ao macro, do planejamento da aula à participação em decisões institucionais.
Pergunta: O que mais define sua forma de atuar como educadora hoje?
Resposta – Anna Beruski: “O que mais define minha atuação é a intencionalidade. Eu não faço nada no automático. Cada aula que eu planejo, cada verbo que eu escolho, cada atividade que eu proponho tem um propósito pedagógico muito claro. Eu penso no desenvolvimento cognitivo, no objeto de conhecimento, na coerência curricular — mas também penso na formação humana. Eu não pretendo ensinar só conteúdo; meu ensino visa leitura de mundo.
Eu sou exigente, criteriosa, mas profundamente comprometida com sentido. Não é sobre cumprir planejamento. É sobre formar pensamento. E, ao mesmo tempo, sei que sou profundamente afetiva. A formação, o conteúdo, é imprescindível… mas também falo de vínculo, comunidade, impacto humano.”
Pergunta: Em que momento você percebeu que sua atuação ia além da sala de aula e influenciava a comunidade escolar?
Resposta – Anna Beruski: “Eu percebi isso quando comecei a participar de processos maiores: validação de materiais, construção de matriz, alinhamento com coordenação, formação de professores. Quando percebi que minhas decisões impactavam não só meus alunos, mas toda a rede ao seu redor, inclusive em outros contextos. Ali eu entendi que minha atuação era estrutural. Eu não estava só aplicando currículo — eu estava ajudando a construir um mundo que não é só o de dentro do espaço escolar.
E isso mudou a forma como eu me vejo: não apenas como professora, mas como alguém que pensa educação em escala, com responsabilidade e consciência histórica.”
Desafios da mulher educadora: competência, autoridade e permanência
Se a atuação de Anna se tornou estrutural, os desafios também deixaram de ser apenas pedagógicos. Eles passaram a envolver reconhecimento, autoridade e legitimidade dentro de espaços decisórios.
A presença feminina na educação é majoritária nas bases, mas isso não garante proporcionalidade nos espaços estratégicos. O desafio, portanto, não é apenas exercer competência, mas sim ter essa competência reconhecida como estruturante.
É nesse contexto que emergem tensões relacionadas à autoridade feminina, à sobrecarga emocional e à necessidade constante de validação.
Pergunta: Quais são os principais desafios enfrentados por mulheres que atuam diretamente na educação?
Resposta – Anna Beruski: “Os principais desafios que eu enfrento — e que mulheres como eu enfrentam na educação — começam pelo invisível. Primeiro, o desafio de ser altamente competente e, ainda assim, precisar provar isso o tempo todo. Mulheres na educação são maioria na base, mas não necessariamente nos espaços de decisão. Quando ocupamos lugares estratégicos, somos vistas como “dedicadas”, mas nem sempre como intelectualmente estruturantes.
Segundo, o desafio da sobrecarga emocional. A escola espera da mulher acolhimento, escuta, cuidado, mediação de conflitos, sensibilidade — e nós fazemos tudo isso. Mas isso não pode anular nosso lugar de pensadoras, de estrategistas, de educadoras.
Terceiro, o desafio da autoridade feminina. Quando somos firmes, somos lidas como duras ou frias. Quando somos criteriosas, como exigentes demais. Existe um equilíbrio delicado entre manter a delicadeza e sustentar a liderança.
E, por fim, existe o desafio mais profundo: continuar acreditando na educação como projeto de transformação, mesmo diante de políticas instáveis, pressões burocráticas e desgaste emocional. Mas, apesar de tudo, permanecemos. Porque nossa atuação não é só profissão — é posicionamento histórico enquanto mulheres e professoras.”
Pergunta: Como conciliar múltiplas responsabilidades profissionais e pessoais sem perder o propósito?
Resposta – Anna Beruski: “Conciliar múltiplas responsabilidades, para mim, não é sobre dar conta de tudo. É sobre hierarquizar sentido. Eu tenho muitas frentes: sala de aula, escrita de habilidades, validação de materiais, formação, estudo constante. Fora da escola, sou mãe, filha, irmã, mulher, alguém que sente, que vive lutos, viagens, vínculos. Corro o risco de me perder no excesso.
O que me mantém no propósito é lembrar que tudo precisa estar conectado a um eixo: formar pensamento e formar humanidade. Se algo me afasta disso, eu reavalio.
Aprendi também que não posso sustentar a excelência permanente em todas as áreas ao mesmo tempo. Existem ciclos. Há momentos em que a profissional está mais exigida. Há momentos em que a mãe, a filha, a irmã, a mulher precisam de mais espaço.
Conciliar, para mim, é aceitar que equilíbrio não é estático — é dinâmico. Então, hoje eu tento definir prioridades com clareza, dizer “não” quando necessário, preservar tempo de silêncio e estudo e lembrar que eu não preciso provar meu valor todos os dias. O propósito não se perde quando eu desacelero. Ele amadurece.”
Rotina e gestão do tempo: estrutura institucional como condição de qualidade
Se a identidade profissional nasce da intencionalidade e o propósito sustenta as múltiplas responsabilidades, a estrutura institucional determina as condições reais para que essa prática se mantenha saudável e consistente.
A qualidade da gestão escolar vai além do detalhe administrativo. Ela define o clima institucional, a autonomia docente e a viabilidade de planejamento consistente. Um professor pode ter clareza de propósito, mas sem organização estrutural, sua atuação fica fragilizada.
Assim, a discussão deixa de ser apenas individual e passa a ser sistêmica.
Pergunta: Sabemos que a organização da escola impacta diretamente o trabalho docente. Como a estrutura da gestão influencia o bem-estar do professor?
Resposta – Anna Beruski: “A estrutura da gestão impacta diretamente o bem-estar docente porque define o clima institucional, o nível de autonomia e a qualidade da comunicação. Uma gestão clara, coerente e dialógica reduz inseguranças, organiza fluxos de trabalho e legitima o professor como profissional intelectual. Isso gera pertencimento e segurança.”
Pergunta: Quando o horário escolar funciona bem, o que muda na prática para quem está em sala de aula?
Resposta – Anna Beruski: “Quando o horário escolar funciona bem, o professor ganha previsibilidade e organização mental. Intervalos adequados, distribuição equilibrada de aulas e tempo real para planejamento reduzem improvisos e retrabalho. Isso impacta diretamente a qualidade da aula e a disposição emocional. Na prática, muda o ritmo: o professor consegue se preparar melhor, transitar entre turmas com mais serenidade e sustentar a atenção pedagógica. Um horário bem estruturado não é detalhe administrativo — é condição para qualidade didática e preservação do docente.”
Conquistas e reconhecimento: impacto estrutural e valorização simbólica
Uma trajetória construída com intencionalidade, responsabilidade estrutural e clareza de propósito inevitavelmente gera impacto. No entanto, impacto e reconhecimento nem sempre caminham na mesma velocidade.
No caso das mulheres na educação, essa diferença se torna ainda mais evidente. A presença é massiva, a responsabilidade é ampla, mas a valorização simbólica, financeira e institucional nem sempre acompanha essa realidade.
Antes de discutir reconhecimento coletivo, é importante entender como a própria Anna percebe sua trajetória.
Pergunta: Ao longo da sua trajetória, qual conquista mais marcou sua vida profissional?
Resposta – Anna Beruski: “A conquista que mais marcou minha trajetória foi perceber que minha atuação ultrapassou a sala de aula. Sou professora há mais de 15 anos e, num primeiro momento, ainda jovem, acreditava que o mundo de dentro da escola bastava. Hoje sei que, mesmo entre as paredes da sala, o bem que a gente faz extravasa.
Pergunta: Você sente que as mulheres na educação são devidamente reconhecidas pelo impacto que geram?
Resposta – Anna Beruski: “Não plenamente. As mulheres são maioria na base da educação e sustentam grande parte do funcionamento cotidiano das escolas, mas o reconhecimento simbólico, financeiro e institucional nem sempre acompanha o impacto real que geram. Há valorização do cuidado e da dedicação, mas nem sempre da capacidade técnica, da liderança pedagógica e da produção intelectual que muitas mulheres exercem.
O impacto é enorme. O reconhecimento ainda é proporcionalmente menor. Exceto entre mulheres que também sabem do seu valor — aí é como sentir-se abraçada.”
Inspiração e responsabilidade histórica
Ao longo da conversa, um elemento se repete: responsabilidade histórica. Ensinar é assumir compromisso com a formação de pensamento e com o mundo que se constrói a partir dele.
A permanência na educação, portanto, não é apenas resistência — é escolha consciente.
É nesse ponto que a reflexão deixa de ser apenas análise e se transforma em orientação para outras mulheres que iniciam a trajetória docente.
Pergunta: Que mensagem você deixaria para outras mulheres que estão iniciando na carreira docente?
Resposta – Anna Beruski: “Eu diria: não reduzam sua atuação ao cuidado. A docência exige sensibilidade, sim — mas exige também rigor intelectual, posicionamento e estudo constante. Invistam na própria formação, compreendam os fundamentos do que ensinam e não tenham receio de ocupar espaços de decisão. E, sobretudo, não confundam dedicação com auto anulação. É possível ser comprometida sem se apagar.
A educação precisa de mulheres competentes, conscientes e estrategicamente posicionadas.”
Pergunta: O que a mantém motivada, mesmo diante das dificuldades da profissão?
Resposta – Anna Beruski: “O que me mantém motivada é o sentido. As dificuldades existem — burocracias, sobrecarga, instabilidades — mas eu sei que meu trabalho interfere na forma como alguém aprende a pensar o mundo. Eu não vejo a docência como execução de conteúdo. Eu vejo como formação de consciência. Quando lembro disso, as adversidades deixam de ser o centro. O que me sustenta não é o reconhecimento externo. É saber que estou contribuindo para algo maior do que a rotina imediata. Enquanto houver impacto real na formação de pensamento, há motivo para continuar. Porém, só reconhecimento não paga contas; batalho para que o equilíbrio entre dedicação e salário digno seja uma breve realidade.
Sem querer ser piegas, mas relembrando a gigante Hannah Arendt: “A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos responsabilidade por ele.” E eu me sinto responsável, e essa responsabilidade me motiva.”
A trajetória de Anna Beruski evidencia que a docência, quando orientada por intencionalidade e consciência histórica, ultrapassa a dimensão da sala de aula e se consolida como atuação estrutural.
Ensinar, em sua perspectiva, é formar pensamento, sustentar critérios e assumir responsabilidade sobre o impacto gerado na construção do mundo de cada estudante.
A GEHA acredita que a qualidade da educação começa na clareza de propósito e na consistência das decisões cotidianas.
Por isso, acompanha e valoriza mulheres que atuam com rigor intelectual, responsabilidade histórica e compromisso com a formação de pensamento, pilares fundamentais para uma educação mais consciente, estruturada e transformadora.