Mulheres à frente da educação: a visão de Luzia Sarno sobre gestão, liderança e eficiência educacional
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4 de março de 2026
Em comemoração ao Dia Internacional da Mulher, o Blog do URÂNIA apresenta, ao longo de março, a série Mulheres à Frente da Educação, dedicada a ouvir lideranças que atuam na estruturação da educação em larga escala. Mais do que destacar trajetórias individuais, buscamos compreender como decisões estratégicas impactam redes inteiras, influenciam a implementação curricular e moldam o cotidiano das escolas.
À frente da Diretoria de Tecnologia da Fundação para o Desenvolvimento da Educação de São Paulo (FDE-SP), Luzia Sarno construiu um percurso profissional marcado pela diversidade de setores e pela atuação em ambientes complexos. Antes de chegar à educação, passou pela indústria química, pelo setor automobilístico, pelo sistema bancário, pelo agronegócio e pela área da saúde.
Essa trajetória transversal, segundo ela, não foi apenas uma sequência de experiências distintas, mas a construção de um repertório que hoje orienta sua leitura sobre desafios estruturais.
É a partir dessa perspectiva sistêmica, menos focada na solução técnica imediata e mais voltada à compreensão profunda do problema, que Luzia analisa temas como organização de rede, tomada de decisão e eficiência educacional.
Trajetória e liderança: diversidade como fundamento da visão sistêmica
Ao falar de gestão em larga escala, é comum associar liderança à experiência acumulada dentro de um único setor. No entanto, no caso de Luzia Sarno, a consolidação de sua liderança não seguiu um caminho linear.
Sua entrada na educação ocorreu após uma trajetória construída em diferentes indústrias, cada uma com desafios próprios, estruturas complexas e alto grau de exigência operacional. Essa diversidade, longe de ser apenas curricular, moldou sua forma de interpretar problemas e organizar soluções.
Pergunta: Ao longo da sua trajetória, quais momentos foram decisivos para sua consolidação como liderança na educação?
Resposta – Luzia Sarno: “Na verdade, é minha primeira vez na liderança de tecnologia no setor educacional. Minha trajetória é totalmente diversa: indústria química, automobilística, setor bancário, agronegócio, saúde e, agora, educação.
Entendo que essa diversidade me ajudou a olhar os desafios de maneira diferente, e vou dar um exemplo: qual é a diferença entre abastecer uma ATM de banco e um centro de distribuição de uma indústria? No final, o que é necessário é otimizar o estoque, seja de produto ou de dinheiro em espécie, de modo a não faltar nem sobrar (literalmente deixar o dinheiro ‘dormindo’). É preciso tratar picos de abastecimento, sazonalidades etc.
Então, o foco em olhar o desafio, e não apenas a solução técnica em si, trouxe sinergia ao aproveitar experiências passadas e acelerar as soluções.
Mas, é claro, as especificidades de cada indústria são únicas. E isso é algo que me encanta: aprender continuamente novos assuntos e, dessa maneira, conseguir dois ganhos na minha trajetória: aprender coisas novas e reaproveitar experiências anteriores.”
Pergunta: Houve situações em que você sentiu que precisou provar sua competência além do esperado por ser mulher? Como lidou com isso?
Resposta – Luzia Sarno: “Sinceramente, não sei se tive sorte por trabalhar em empresas mais preparadas nesse aspecto, mas sempre fui analisada por competência e entregas, comparada com esses critérios em relação aos meus pares, sejam homens ou mulheres.
Também acredito que é importante se posicionar dessa maneira, considerando isso como óbvio e inegociável, pois essa postura ajuda a induzir um comportamento nessa linha e a questionar quando se percebe que esse critério não foi aplicado. E, claro, ser coerente com o próprio time e agir da mesma forma.
Reforçando que isso deve ser aplicado a qualquer dita minoria”
Ao tratar a liderança como responsabilidade e coerência, Luzia desloca o debate para o campo institucional. Essa perspectiva conduz ao próximo ponto: como a presença feminina se organiza dentro das estruturas da educação pública.
Mulheres na gestão educacional: estrutura institucional e critérios de decisão
Se a trajetória individual molda o estilo de liderança, a estrutura institucional define as condições em que essa liderança se exerce. No setor educacional público, onde processos formais como concursos e progressões de carreira organizam parte significativa das posições estratégicas, a presença feminina assume características próprias. Ainda assim, nem todas as funções seguem essa lógica, e é nesse equilíbrio entre avanço estrutural e critérios de escolha que se situam os desafios.
Pergunta: Como você enxerga a presença feminina nos cargos estratégicos da educação pública hoje? O que avançou e o que ainda precisa evoluir?
Resposta – Luzia Sarno: “É também minha primeira experiência no setor público e o próprio modelo de concursos e evolução de carreira mitiga bastante os efeitos de preconceitos. Aliado a isso, naturalmente a área da educação conta com mais mulheres, em todos os níveis. Vejo a presença feminina na SEDUC e na FDE muito bem distribuída; diria que as mulheres são maioria nas posições superiores, como diretoras e dirigentes.”
Pergunta: Quais são os principais desafios enfrentados por mulheres que ocupam posições de liderança em instituições públicas?
Resposta – Luzia Sarno: “Como comentei, entendo que há até mais oportunidades do que no setor privado em geral. Entretanto, os cargos comissionados, que são designados sem concurso, apresentam comportamento semelhante ao do setor privado: há várias situações em que a competência é o que importa, independentemente de qualquer outro fator, e há outras em que as escolhas não são tão pragmáticas.”
A análise evidencia que representatividade numérica não elimina a necessidade de critérios claros. E é justamente na tomada de decisão que esses critérios se tornam mais visíveis.
Decisão estratégica em contextos complexos: propósito como eixo orientador
Redes educacionais em larga escala operam sob pressão permanente: demandas sociais, expectativas políticas e responsabilidade institucional. Nesse ambiente, a consistência decisória depende de um norte claro. Para Luzia, o propósito institucional funciona como balizador técnico, reduzindo dispersões e reforçando o foco no impacto educacional.
Pergunta: A gestão educacional envolve pressão política, social e institucional. Como você equilibra firmeza e sensibilidade nas decisões?
Resposta – Luzia Sarno: “O nosso secretário da Educação, Renato Feder, tem uma frase gravada na parede de sua sala: ‘Essa decisão é boa para a Educação do Estado de SP?’ Isso permeia todas as nossas ações e, dessa maneira, nosso propósito se mantém sempre alinhado. É um balizador muito eficiente para pesar os prós e os contras e nos ajuda a não nos desviarmos do objetivo de oferecer a melhor educação aos nossos alunos.”
Pergunta: Que competências você considera essenciais para mulheres que desejam assumir cargos de liderança na educação?
Resposta – Luzia Sarno: “Não vejo diferenciação entre cargos de liderança na educação ou em outras indústrias. Também não vejo diferença significativa entre gêneros para que alguém seja considerado um bom líder. Cada pessoa tem suas características; o gênero pode ter certa influência, mas, no final, o que importa são os resultados e a forma como foram obtidos.
Dito isso, considero que uma boa liderança envolve visão e propósito claros, competências de comunicação, inteligência emocional, principalmente em situações de crise, habilidades de gestão de pessoas e de desenvolvimento de equipes. À medida que se avança na estrutura, as habilidades de influência e gestão de stakeholders tornam-se um diferencial.
Por fim, é fundamental demonstrar resultados concretos e, principalmente, ter a humildade de aprender continuamente. O mundo atual é muito diferente de quando iniciei no mercado. Se eu não tivesse me adaptado e me aberto ao aprendizado, não estaria aqui hoje.”
Em sua visão, a liderança, nesse contexto, é menos uma questão de perfil e mais uma combinação de visão, responsabilidade e aprendizado contínuo. Essa perspectiva amplia o debate sobre o impacto social da diversidade nas políticas educacionais.
Diversidade, políticas públicas e ambiente escolar
Quando se discute liderança feminina, é comum simplificar o impacto em termos simbólicos. Luzia propõe uma leitura mais estrutural: a diversidade amplia perspectivas e revela pontos cegos que grupos homogêneos tendem a não enxergar. No campo educacional, isso pode se refletir tanto na formulação de políticas quanto na organização do ambiente escolar.
Pergunta: Você acredita que a presença de mulheres em cargos de liderança impacta a forma como políticas educacionais são construídas?
Resposta – Luzia Sarno: “Vou falar de maneira mais genérica, mas que se aplica às políticas educacionais: a presença de diferentes gêneros traz perspectivas distintas (‘gender mainstreaming’). Características predominantes em determinado gênero tendem a influenciar as políticas desenhadas. Por exemplo, no caso do gênero feminino: políticas específicas de inclusão de meninas em áreas STEM, olhar diferenciado para infraestrutura e segurança, atenção à carga doméstica desproporcional que pode ‘roubar’ tempo de estudo, entre outros aspectos.
Mas não é algo mágico nem automático. O efeito depende do contexto institucional, do grau de poder real e da diversidade dentro do próprio grupo de mulheres.
Prefiro pensar que, em vez de afirmar que mulheres são melhores ou piores, a diversidade de experiências no processo decisório agrega mais valor.”
Pergunta: Como a gestão pode contribuir para tornar o ambiente escolar mais equitativo e acolhedor?
Resposta – Luzia Sarno: “Entendo que a primeira grande definição está nos indicadores que serão medidos e acompanhados. Trabalhar questões de cultura e clima organizacional, com segurança psicológica e inclusão de todos os envolvidos — alunos, pais ou responsáveis, corpo docente — torna o ambiente muito mais saudável.
Aqui na SEDUC-SP, temos uma área que atua exatamente nessa linha, com apoio psicológico, quando aplicável, a alunos e docentes, ações de escuta ativa, workshops sobre temas relacionados à convivência, rodas de conversa, entre outras iniciativas.”
Sua visão reforça que equidade depende de estrutura, acompanhamento e cultura organizacional. Essa dimensão leva à reflexão final sobre continuidade e transformação.
Futuro da liderança feminina: propósito e mudanças estruturais
Ao projetar o futuro, a discussão deixa de ser apenas sobre trajetória individual e passa a envolver as condições institucionais que permitam a ampliação da liderança feminina. Para Luzia, propósito pessoal e mudanças estruturais caminham juntos.
Pergunta: Que conselho você daria para jovens mulheres que desejam atuar na gestão educacional?
Resposta – Luzia Sarno: “Independentemente da indústria em que você queira atuar, meu conselho é simples: procure algo que você ame fazer. Eu me baseio muito no conceito japonês de ikigai, formado por quatro dimensões: algo que você ama, algo pelo qual é remunerada, algo em que é boa e algo de que o mundo precisa.
Entendo que, ao começar pelo primeiro fator, naturalmente você buscará se aprimorar e se tornará boa nisso. A remuneração tende a ser consequência. Mas, se conseguir encontrar algo que ame e que também seja necessário para o mundo, o ciclo se fecha.”
Pergunta: Que mudanças estruturais ainda precisam acontecer para que a liderança feminina na educação seja vista como regra, e não exceção?
Resposta – Luzia Sarno: “Como comentei anteriormente, nossa realidade na SEDUC-SP já contempla maioria feminina nas posições de liderança. Mas, falando de forma mais ampla, sabemos que essa não é a realidade geral. Fatores como seleção e promoção isentas, transparência nas metas, clareza das regras, mentorias direcionadas e equidade salarial são medidas óbvias, mas que nem sempre estão presentes e ainda precisam avançar.”
A trajetória de Luzia Sarno revela que estruturar redes educacionais exige visão sistêmica, clareza de propósito e decisões orientadas por critérios objetivos. Em larga escala, eficiência educacional não é resultado de soluções isoladas, mas da articulação entre organização, cultura institucional e aprendizado contínuo.
Pergunta: Hoje, qual é o papel da tecnologia na transformação da complexidade operacional em decisões educacionais mais justas e eficientes, para uma rede do porte da SEDUC-SP?
Resposta – Luzia Sarno: Eu acredito que a Educação muda um país e o papel da tecnologia é dar velocidade e escalabilidade a esse processo, principalmente em nossa rede, uma das maiores da América Latina e bastante diversa. Não se trata de substituição de papéis, mas, disponibilizar ferramentas que aceleram os trabalhos operacionais, padronizam conteúdos, viabilizam escalabilidade, dentre vários outros.
Exemplifico alguns temas de eficiência e escalabilidade:
- Nós temos 65 mil salas de aula e diariamente os professores fazem a chamada eletronicamente, o que nos permite ter mecanismos diários para evitar evasão dos alunos. Com isso saímos de 78% de frequência (1º semestre de 2023) para 89% de frequência (2º semestre de 2025). Isso representa mais de 150 mil crianças em sala de aula diariamente.
- De maneira análoga, a gestão e distribuição de mais de 180 mil professores, por todos componentes, em todas as séries, não seria viável sem apoio tecnológico.
- Todo nosso material digital e impresso é distribuído à toda rede, dando padronização, ganho de tempo dos professores, sem tirar a autonomia para trabalharem na especificidade das diferentes salas de aula.
- Nossas tarefas vão na mesma linha: temos produção centralizada, com auxílio de inteligência artificial, sem tirar autonomia dos professores. Ao final do ano de 2025, chegamos a 1 bilhão de tarefas realizadas por nossos alunos. Sem o uso de tecnologia, não seria viável tratar esse volume e ajudar os alunos a aprenderem.
- Temos ferramentas para transformar nosso conteúdo digital em materiais propícios a determinadas neurodivergências, indo ao encontro de uma educação equânime. Sem ferramentas assim, não conseguiríamos produzir com qualidade, tempo e custo razoáveis.
- Temos mais de seis programas para recuperação do aprendizado, buscando mitigar os efeitos da pandemia e vários outros, dando oportunidade a todos estudantes brilharem.
- Por fim, os números de evolução do SARESP 2025 falam por si, onde tivemos aumentos expressivos em português e matemática em todos os anos, e, particularmente, em Matemática o melhor resultado da série histórica, que completa 30 anos em 2026. Claramente a tecnologia sozinha não é a solução, mas aliada a políticas educacionais robustas como da SEDUC-SP, chegamos a um patamar diferenciado e, sem dúvida, com resultados concretos e promissores.
O URÂNIA acredita que a eficiência da rede começa na organização do cotidiano escolar. Por isso, acompanha e valoriza lideranças que estruturam a educação pública com consistência, dados e visão sistêmica.